Feliz Blogday 2008 atrasado

Entardecia e a lua se mostrava como uma grande abóbora no céu índigo da Blogolândia. Derramava-se uma claridade exuberante sobre o reino de Pargarávio, uma terra fértil há 2km de Far Beyond Insanity, habitada por humanos, mulheres de quadris largos e cães São Bernardo invisíveis, cuja principal atração turística era um conjunto de caixas pretas peludas que se teleportavam de um lugar para outro dentro da praça central, de diversos tamanhos e formas, atrapalhando e derrubando turistas descuidados de muitas maneiras diferentes e divertidas. Na primavera, as caixas exalavam odor de bergamota. Os ferreiros pargaravianos eram bastante conhecidos por construírem armaduras mágicas que protegiam o usuário contra bicadas de corvos e por talharem Kant e Wittgenstein nos versos dos capacetes, rendendo luais e, por vezes, um sarau de filosofia durante a guerras.
Naquela noite, as únicas luzes visíveis do reino vinham do salão de beleza Corto Cabelo e Pinto, dirigido por João Argamassa, e do andar térreo do palácio real. Nele ocorria um grande evento, onde bufões cuspiam fogo uns nos outros e uma divisão inteira de paladinos amardurados se degladiavam e apostavam, sentados no chão, quem manufaturava o unicórnio de bexiga mais rápido. No momento em que o menestrel e sua banda iniciou o solo de bandolim do hit medieval “Pato com Fome Não Dança”, os paladinos subiram no palco e deram início a uma seqüencia mortal de moshes sobre as camareiras reais. O rei e sua corte degustavam festivamente uma sopa de cérebro com shoyu enquanto apreciavam o espetáculo anual, comemoração do aniversário do desaparecimento da Princesa Nana.
A pequena Princesa Nana era delicada como um meio-orc quarterback, bobagenta, faltava na escola e era inclinada às coisas geek. Quando criança, foi vítima de uma magia errante da bruxa e numeróloga Lupina Luana — ao conjurar minhocas interdimensionais para humificar o jardim de seu calabouço, acabou compilando o source errado e instalando sem querer uma maldição terrível sobre a princesa: a partir da meia-noite ela se tornaria uma abominação temível pela aldeia, o Monstro-que-faltava-nas-gravações-do-podcast-dos-Ortonormais de duas cabeças. Seu desaparecimento trouxe felicidade sem fim para o reino, e por um tempo foi bom…

Princesa Nana na forma de faltadora de podcasts.
Contudo, o reino diabólico de Haznos, que nunca desejou se identificar, contratou um cientista mercenário para resgatar a princesa Nana e trazer de volta para Pargarávio a tristeza e o desespero. Eu, Cafendorf, o artífice gnomo, recebi 8 moedas de chocolate e um peso de papel de porquinho para resgatar a pequena princesa.
Hoje era um bom dia para começar minha investigação. Vesti minha fantasia de lantejoulas com borolas para não chamar a atenção e pus-me a interrogar cada pessoa na rua com meu olhômetro, minha mais recente invenção — serve como medidor de globos oculares, spray de pimenta, polígrafo e saca-rolhas.

Representação fiel de um olhômetro de precisão.
O último avistamento da Princesa Nana aconteceu no The Boredom Club, um taverna instalada no décimo segundo quilômetro de uma estrada perfeitamente plana, reta e com um espaçamento monótomo entre árvores taxonomicamente idênticas. Nana costumava freqüentar o recinto, onde curtia os prazeres da vida com um nerd curitibano comparsa seu, jogando caramelo nas teias neuroniais das tarântulas psíquicas que surgiam nas quinas das paredes por falta de limpeza.
Aproximei-me de Doufer, o bartender anão, e ele começou com um papo de bêbado, recomendando cervejas, hidromel e óleo dois-tempos. Antes que ele terminasse a sentença, saquei prontamente meu olhômetro e medi suas órbitas oculares — o bartender estava limpo. Disse-me em seguida que a Princesa havia vendido manjericão de fumo para traficantes e desde então ninguém mais a viu.
Um homem com barbas longas e brancas e um chapéu pontudo permanecia quieto na mesa triangular no centro do salão. Só o percebi, de fato, quando ele se levantou e começou a falar em um tom estridente insuportável. Disse-me que para este resgate, eu precisaria de um artefato chamado Gerador de Efeito Ázaron.

O gerador de efeito Ázaron.
Através de uma bobina, algumas válvulas e três hamsters em uma esteira, segundo o velhote, aquele aparelho me traria a sorte de um milhão de trevos de quatro-folhas cozidos em sal de ferradura. Resolvi ligar o artefato e configurá-lo para a potência máxima. Sorte era tudo do que eu precisava. Era hora de um test drive e serei minha própria cobaia.

O gerador de efeito Ázaron gerando muita sorte para o reino.
E então devido ao meu ato imprudente (ou efeito?), o reino de Pargarávio passou a arder em chamas, sofrer com chuvas torrenciais de piche e com a volta imediata da Princesa Nana, que devorou as caixas pretas peludas, orgulho da nação, acabando com a renda advinda do turismo e trazendo miséria e fome para o vilarejo em ruínas.
Meu serviço ao menos está feito e a Princesa Nana está de volta. Dane-se o reino, quero mais é saborear minhas moedas de chocolate… porra, é chocolate branco.






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